Descobri Júlia Lopes de Almeida fora dos
caminhos obrigatórios da literatura. Seu nome não me foi apresentado como
tantos outros; chegou depois, como chegam as mulheres que a história tentou
silenciar. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1862, e faleceu em 30 de maio de 1934.
Hoje sinto que escrever sobre uma mulher pioneira, porém pouco lembrada, é
honrar essa ancestralidade da mulher na Literatura Brasileira.
Essa
mulher de vanguarda, e de ousadia, à época, de estar onde as decisões eram
tomadas: nos jornais, nos livros, e nos debates intelectuais daquele fim do
século XIX e início do século XX, é um misto de coragem, versatilidade e
empoderamento para inspirar mulheres de forma atemporal e sem fronteiras.
Escreveu
romances, contos, crônicas e peças teatrais que observavam a sociedade por
dentro, revelando as limitações impostas às mulheres, à vida doméstica e às
convenções sociais. Talvez por isso
tenha sido considerada incômoda: porque dizia com clareza o que se preferia
manter invisível. Havia muito a se desvelar na estrutura social daquela época e
como as mulheres estavam relegadas aos limites dos afazeres cotidianos e
familiares, e nunca convidadas a ocupar espaços intelectuais, políticos e de
destaque nas áreas do conhecimento. Ela ousou quebrar tabus e deixar o caminho
mais largo para que mais mulheres pudessem questionar os padrões sociais e
perceberem que a literatura escrita por uma mulher podia ser algo histórico ao
retratar as situações da vida sob um
ponto de vista feminino e questionador.
E
como toda ancestralidade é marcada por lutas e injustiças, embora ela estivesse
entre os que fundaram a Academia Brasileira de Letras, não pôde entrar. O espaço que ajudou a construir lhe foi
negado por uma razão simples e definitiva: ser mulher. Sua escrita não buscava
a revolução per si. Buscava permanência. E talvez a maior revolução seja
exatamente essa: buscar visibilidade e legitimidade. Mares
bravios...territórios alcançados.
Entre
seus romances destacam-se: A viúva Simões, Memórias de Martha e A
falência, este último publicado em 1901 pela editora Francisco Alves.
Ademais, foi pioneira da literatura infantil no Brasil, abrindo caminhos em um
território ainda pouco explorado por mulheres escritoras. Seu primeiro livro
para crianças, Contos Infantis (1886), reuniu 33 textos em verso e 27 em
prosa, destinados ao público infantil, marcando um momento fundamental na
consolidação da literatura infantil brasileira.
Júlia
representa uma ancestralidade feita de constância — não a da ruptura ruidosa,
mas a da resistência cotidiana, aquela que insiste mesmo sem aplauso.
Seu
apagamento institucional não diminui sua importância; ao contrário, revela o
quanto sua presença era necessária.
Hoje,
ao escrever, reconheço que minha palavra não nasce sozinha. Ela carrega o gesto
das que vieram antes, das que sustentaram a escrita quando o reconhecimento
lhes foi negado.
Júlia
foi uma dessas mulheres que ficaram do lado de fora, mas não se retiraram.
Resistência foi sua essência. Imaginem a força dessa mulher em não se acomodar,
ainda que lhe fosse tomado seus méritos e seu brilho ofuscado.
Ancestralidade,
aprendo com ela, é resgatar nomes esquecidos e devolvê-los ao lugar de onde
nunca deveriam ter sido excluídos.
Escrevo
porque ela escreveu. E no coletivo, honramos as que fizeram história e
inspiramos as novas gerações, garantindo manutenção e busca de ampliação de
espaço da mulher na literatura.
Portanto, também escrevo para
que nenhuma de nós precise mais ficar à porta.
Referências
ALMEIDA, Júlia Lopes de. A Falência.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1901.
ALMEIDA, Júlia Lopes de. Memórias de
Marta. São Paulo: Editora Mulheres, 2007


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